Atencin

Namastibet

     

, 17:10

Transhumante GR11 (2009/2012)

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O Transhumante


Ou "Versus de Montanya Mayor"


Sud-express , embalado , em lenol deslavado,o Transhumante adormece
rapidamente . Nos beliches prximos Hamid, gordo e seboso que dizia em mau Ingls
ter como destino o Cairo , e um estranho sujeito, de olhar magro , detrs dos
culos redondos ,com poucas palavras em que dizia vir do Alaska .
Na escurido do compartimento apenas o foco de luz da lanterna frontal lhe permite escrever, seria A sua Luz, sua companheira nos momentos negros , pelo Pirenu "nos versos de Montanya mayor".
Na Primeira noite , ficou em plena floresta, em Elizondo, no bosque furioso ,onde o vento o fustigou uivando como um lobo toda uma noite sobre aquele pequeno e frgil refgio , azul e negro (o bivac) da cor da potente tempestade.
Virando-se para trs, fitou na manh seguinte, um esquio de Pirinu que no
esqueceria jamais, tinha-se perdido e desistido nesse mesmo local, em idos de Junho , doutro
tempo, por defronte, bem alto, enfrenta um rasgo de Pirinu mais tosco, tentar desafia-lo e rasgar o medo de ser solitrio.
Seguidamente e J em Urvallo ,numa pequena e tpica cabana de caa, Pako e famlia ,partilharam com ele uma generosa refeio inundada a vinho que o reabilita e insta ,os quilmetros seguintes foram divertidos e relaxados,instalou-se nele a confiana,
At encontrar um holands , que o considerou louco , por cantar em voz alta ;
Masquem se poderia considerar so, naquelas interminveis danas, com rvores e
pedras. Pensou em Saramago , no "Memorial do Convento ","completamente louco , varrido, numa terra , varrida de loucura."
Veio ento Burgette,outra pequena aldeia de montanha ,mais alguns km.de
pista e encontra finalmente os primeiros peregrinos de Santiago, inconfundveis
, no aspecto medievo; poncho, cabelos compridos, chapus de cabedal e
tambm de emoes diferentes , ainda no partilhadas por ele , homem pouco dado
a epifanias, pelo menos at aquele momento.
Chove constantemente, mas mos bem assentes , em cumprimentos efusivos dos peregrinos sobre os seus ombros como que o protegem .
O trilho, apesar de difcil,flua perante os seus olhos, sob os ps demasiado cansados,rumo a mais um colo de outras florestas.
Um belo arco-ris em Mendilaz,outra aldeia , nada fazia prever , perante aquela imagem , o tsunami que essa noite iria cair, felizmente o "fronton",(recinto de pelota basca)
coberto , evitou males maiores, conseguiu dormir seco.
Enfim , Ochagavia e Isaba ,e depois da tempestade a bonana , fresca , com cheiros benignos e resinosos ,acompanhou-o , na respirao rpida e ofegante de caminhante feliz , Col de Somport e Candanch aproximavam-se depressa,Venceu-se horizontes
e espanta-se que , as novas vistas , sejam diferentes , apesar de iguais , e
assim progride , diariamente , tentando ver o que est por detrs do monte,por
detrs dos novos e iguais horizonte.
Os grandes estrades gastos, antes de comearem os caminhos empinados, permitem-lhe escrever enquanto caminha rpido ,o tempo , demasiado calmo, anuncia a nova tempestade, nas tardes certas ,sempre em tempo certo.
Imensos esquilos fugindo, alguns veados e cavalos , quase o empurram, o cu tinge-se de negro, rugindo forte , ao som das trovoadas.
"Valle do Ecco" ...escrito no mapa molhado , um Vale, onde nem os prprios pensamentos consegue ouvir.
Encontra Ascencion e Angel,foram companheiros por algumas horas e repartem com ele batatas cozidas,acompanham-no poucos kilometros , mas logo ficam para
trs .
Apenar os nomes destes,Angel e Ascencion , no se enquadram com o local onde os encontrou,Valle do Erro (vale dos Cavalo),seria engano ,estaria errado de novo? (como em 2007) Desacertado encontro com Anjos,mais tarde haveria de pensar nesse acontecimento. De novo alcana proteco, na escurido de Isaba .
Terceira noite adormece apesar de fortes dores num p torcido de quando caiu de uma
ravina sobre um colcho de folhas podres , foi a mochila que felizmente amparou a
queda.
Depois disso viu (ou pensou ver) o que pareceu "O S. Miguel," na porta
do mosteiro do sculo doze,como uma miragem , mas foi s ele que o conseguiu ver em doze sculos , foi um sopro de esperana , na realizao da difcil etapa e e no finalizar do percurso. Coxeando muito, arrastava o corpo cansado em direco de Zuriza e Aguas Tuertas , depois e porventura acabaria chegando a Candanch ,coll du Somport, quase doze horas de marcha tarefa rdua , mas pensava conseguir chegar, estava bastante animado.
Acordou ainda era noite fechada,tinha de esticar o passo em direco ao desfecho, iria percorrer um terreno muito mais difcil de montanha, com trilhos pouco definidos e sem mapa, j que, quando partiu de Irun,(local da foto acima) , no pensava chegar
to longe ,a neve , fora de poca e pendurada nos picos de Penha Forca ,incomodava-o, teria de atravessar,com tnis , uma zona de progresso mais tcnica e difcil.
Encontra ento o derradeiro Miguel,quem sabe, talvez o S. Miguel da porta da Igreja do sculo doze (,aquela figura dbia que apenas a ele ,doze sculos depois do carpinteiro a talhar lhe parecia mostrar o S.Miguel estilizado na porta de madeira velha)
Miguel nunca tinha pisado a Montanha to seriamente , condutor de autocarro, resolveu uma semana antes atravessar esta rota ,assim e sem mais , nem menos... .
mas foi Graas ao apoio mtuo que chegaram
ao coll du Somport,Candanch.
Miguel continuar ainda caminhando, entre os caminhos dos peregrinos e outros,
nos "Versus da Montanya mayor" em busca de outros viajantes solitrios em perigo.
Ele ,"O Transhumante" ,regressar de novo em outros dias de outros Junhos , noutro tempo ( por sinal este ano de 2010 a 6 de Junho),na tentativa de chegar a Andorra ,at ao Mediterrneo em 2011 ou 2012, e mais alm....Talvez, (porque no Istambul ?)



Jorge Santos/Transhumante
05/2010



O Silncio do Nada
2 etapa (Coast to Coast) Atlntico /Mediterrneo
3 dias (Canfran/Viads)
O dia estava morno e ventoso enquanto calcorreava as escadinhas de Alfama, ao fim do dia despediu-se da companheira o do filho no Museu da gua e um txi levou-o ao aeroporto, opo que se revelaria incmoda, apesar da rapidez deste meio de transporte em relao ao autocarro habitual (Lisboa /Madrid costumava demorar cerca de 9 horas).
Estava animado pelo sucesso do ano anterior, tinha percorrido 250 km em quatro dias e meio, ainda no tinha recuperado completamente do p torcido (talvez nunca recuperasse), mas nada o detinha na tentativa de atravessar do Atlntico ao Mediterrneo, desta vez comearia em Canfran, perto de Candanch, (coll du Somport) onde tinha finalizado em 2009,Canfrac era uma linda estao de caminho de ferro, monumento de outras pocas mas tristemente abandonada junto fronteira com a Frana, esperava ainda os comboios que no mais chegariam, por estpidos motivos polticos.
Eram 13:27, hora de almoar e lanar-se montanha dentro apesar da chuva forte e da neve em quantidades recordes nas portelas e cumes, percorreria 18 km at ao anoitecer em Salent Galego
Ao chegar a Fuerte Col de ladrones, uma pequena fortificao de portagem medieval, j est encharcado at aos ossos e tremendo de frio, sob a pouca roupa que tinha consigo, afinal era vero e tinha de carregar o mnimo de peso para conseguir alguma velocidade num terreno to inclinado como era aquele com passagens pelos 2.500 metros e desnveis considerveis.
O xisto cinzento parecia fazer crescer um cu tormentoso quando chegou a Formigal, uma Dantesca estancia de ski, teve de apressar-se ao sentir os tpicos sinais de resfriado provocados pela neve e gelo e o esgotamento dos cerca de 20 km feitos numa nica tarde, quando chega finalmente a Salent Galego entra na primeira porta e nem negoceia o preo da noite, tinha pressa de secar e dormir, a ltima noitada tinha-se passado esperando transporte no terminal rodovirio de Zaragoza, dando voltas enorme estao para conseguir manter-se acordado, sabia que o permetro demorava uma hora a completar, em passos lentos e foi assim contando as horas de uma noite difcil, mas era prefervel a acordar sem nada como j tinha acontecido fazia tempo
De manh acordou as 7 horas, mas sai do hotel as 8 horas em ponto, com cu limpo espelhando-se na barragem de Sallent a caminho de Panticosa mas f-lo pelo caminho fcil, tinha-se informado previamente da viabilidade de outro caminho mas a neve continuava intransponvel, alm disso este estrado ia directo at ao balnerio de Panticosa, outra aberrao Pirenaica, uma estao Termal cinco estrelas inaugurada e logo abandonada, este atalho permitia-lhe aumentar substancialmente a velocidade mdia do percurso por ser feito numa estrada e no num caminho sinuoso e difcil como a maior parte do percurso.
Olha para o relgio, eram 11 horas e estava j em Panticosa, percorrera 20 km em 3 horas e esteve animado nos restantes 17 km at Bujaruelo onde chegou pelas 5 horas da tarde,a tempo da primeira refeio do dia e recuperar flego para os prximos 18 km at ao Parque natural de Ordesa (Cabana Suaso).
Pela primeira vez encontra uma alma viva no trilho, assusta-o o rastilhar do mato, era um corredor de longa distancia que aparece repentinamente, ia na mesma direco e mais tarde protagonizaria com ele o abandono do GR depois de se perderem juntos em Goriz.
Foi um dia longo, percorreu 56 km, j tinha anoitecido quando se aconchega frio e molhado na Cabana Suaso cheia de centenas seno milhares de inofensivos ratos, no Parque Natural de Ordesa e Monte perdido, o p voltou a resvalar numa pedra e foi dolorosamente que se arrastou a ultima centena de metros e de novo sob chuva forte, a chuva constante de todas as tardes Pirenaicas.
Mas renova-se de energias no terceiro dia pela excelente paisagem de canyons e florestas densas da zona, Goriz e Anisclo eram agora as metas e seria talvez no Refgio de Pineta ou a aldeia de Parzan sua prxima meta,ainda no sabia ele que chegaria a Parzan sim, mas no carro de apoio do John ,o incontornvel corredor de montanha.
O trilho escondeu-se sob a erva muito alto, (de novo devido meteorologia extrema do ultimo inverno) as confortveis marcas brancas e vermelhas desapareceram, esperando por ele mais frente estava John, o referido colega de percurso que lhe fazia lembrar uma lebre sendo ele a tartaruga, o outro corria, e ele, com algum peso s costas (alm da idade, que comeava a pesar tambm, apesar de Transhumante) tentava deslocar-se o mais rpido que podia.
Foram horas que passaram na busca do trilho e de "Fuen Blanca"um manancial que indicaria ser por ali o trilho que desceria pela vertente, no podiam inventar, s aquele trilho os levaria ao vale e ascenderia depois ao colado Anisclo, uma das subidas mais ngremes de toda a viagem.
Foi decepcionado que o Transhumante desiste do projecto pelo qual esperou um ano , sando do percurso, alcan-lo de novo implicava um dia de marcha e as condies anmicas no eram as melhores nessa altura para lhe permitirem retomar o caminho.
Baixa para a aldeia de Nerin onde felizmente o aguarda John e o transporte que o coloca de novo na continuao da marcha, desta vez mais frente, na pequena aldeia de Parzan, a poucos quilmetros do tnel de Bielsa, pensa que talvez assim consiga chegar a Benasques , abandonada de vez a vontade de alcanar Andorra. O aneto, prximo de Benasques marcava a metade do percurso Gr11, costa a costa e seria suficiente nesse ano ,regressaria mais tarde onde se tinha perdido para averiguar melhor, por agora estava conformado e cansado,terminou o dia com uma derrota de portugal face a Espanha no Mundial da frica do Sul de 2010 e jantando na nica taberna da Localidade, servido por uma imigrante do Brasil, ironias do destino.
Tem 40 km para percorrer, o p inchado dificulta-lhe a marcha, de novo Jonh passa a correr e despedem-se:-at Benasques, Pensam encontra-se novamente no final mas no conseguiria l chegar, ao meio da tarde e feitos apenas 20 km, desiste na cabana "refgio de de Viads", consegue boleia na aldeia de Plan, haveria de voltar de novo no ano seguinte, esperava ele , e com melhores condies atmosfricas, talvez com menos neve nos cumes e menos chuva nas tardes curtas.
Recorda-se do ano anterior(2009) e do Miguel ,o S. Miguel do convento do sculo xII ? ou simplesmente um condutor de autocarro, este ano tinha comparecido diante dele um Deus alado, O Mercrio determinado e com asas nos ps ,qual seria no ano seguinte o personagem que o acompanharia, tinha curiosidade em saber e doze meses para melhorar do entorse ,talvez no fosse m ideia usar botas na prxima vez, em lugar dos usados tnis , apesar destas lhe diminurem consideravelmente a velocidade.
Em Ainsa ,depois de Plan ,apanha uma outra boleia boleia (fazia-o recuar aos tempos em que viajava de boleia pela Europa) desta vez deixa-o na estao de autocarros na cidade de Barbastro, com destino a Saragoa , Madrid e Lisboa, soube-lhe a pouco os trs dias e meio no silencio do nada (120 km) e depois aquela interminvel viagem de autocarro de 900 km, mas sabe que regressar no ano seguinte
Por agora resta-lhe voltar A Burgos para finalizar de bicicleta o "caminho de Santiago" at Finisterra, 600 km de trilho e ele ainda pode pedalar,o movimento dos pedais no o incomoda demasiado,como treino tentar fazer a estrada mais longa do pas ,a N2,com 900 km de Faro a Chaves ou ao Cantbrico,to distante para alguns mas to perto para ele, pensa no seu amigo Idlio,( http://bacalhaudebicicletacomtodos.blogspot.com ) a pedalar do plo Norte ao plo sul e como gostaria de o acompanhar ou talvez no,est to habituado a estar s que encara como natural esse estado,esse silencio...esse nada...

Jorge santos
http://namastibetphoto.blogspot.com

Junho de 2010


Transhumante Parte 3 (Dirio de um Louco)


Os primeiros orvalhos do Outono j se faziam sentir nas plancies madrugadas de Espanha e vestiam-se de ruivo nas espigas e nas vistas da janela do comboio/Hotel Lusitnia. O Transhumante despertava de uma noite mal dormida em solavancos e guinadas para mais uma etapa nos Pirenus, depois de chegar a Madrid ainda teria de percorrer outras estaes e outros comboios mais modernos e rpidos que o levariam at onde tinha terminado no ano anterior, em Ainsa, S. Joan de Plan/Biads.
Um txi colectivo despejou-o j noite, no fim da estrada de alcatro que to bem conhecera no ano anterior (2010), sabia a distancia que iria percorrer a p at ao refgio, (cerca de vinte quilmetros) mas no, se estaria aberto dada a proximidade do inverno e, para aumentar a incerteza no tinha comida para essa noite nem para se lanar nos caminhos costa a costa do GR 11.
Ainda ponderava na lucidez do seu estado mental e no que o levava a fazer este disparate de atravessar os Pirenus do Atlntico ao Mediterrneo quando as luzes de um veculo-todo-terreno iluminam a estrada, iam na mesma direco e tinham uma valiosa informao O refgio estava aberto -j tinha transporte e tambm onde "senar" e dormir nessa noite, comeara bem esta aventura de loucos.
Acordou "com as galinhas", mal se avistava j os caminhos tnues da montanha mas felizmente o bom tempo presenteava ainda um doce fim de Setembro que mais parecia primavera e nas pernas do Trashumante, as primeiras horas decorreram gloriosas, corria como um louco, esquecera tudo quanto deixara para traz, respirava o silencio do nada numa terra inundada de loucura.
Recordava as manhs longnquas de quando iniciou dois anos antes em Irun esta rota e lhe parecia estar to distante do final, no Mediterrneo em Cap de Creus, mas afinal j tinha feito metade, estava agora percorrendo a parte mdia ou central, mas tambm a zona mais alta da cordilheira Pirenaica, onde as tempestades poderiam ser mais perigosas e as etapas mais dolorosas com desnveis considerveis(entre os 900 e os 2.700 metros).
Conhecia grande parte destes lagos de montanha e parques naturais paradisacos, melhor que o resto da cordilheira, mas durante todos os anos que deambulou por aqui, nunca imaginara que pudesse passar um dia correndo de Norte a Sul ainda menos como lobo ou urso solitrio, quase sem roupa para mudar, sem comida para as jornadas nem apoio logstico ou mesmo transporte prprio para fazer, depois de terminadas as jornadas, os 1.100 km que separavam a montanha, do conforto da casa e da famlia, da normalidade.
Era uma rematada loucura estar correndo os 800 km da rota Pirenaica no sendo um habitante local, habituado e melhor conhecedor da regio, para estes bastavam oito dias, como lhe disseram ser o "record" da travessia, mesmo assim estava determinado a usar apenas 12 /13 dias, talvez poucos o conseguissem.
Na porta do refgio de Ests, num papel escrito a pressa, dizia que o guarda voltaria prximo do meio-dia e meia hora, tentaria almoar mais tarde, apesar do estmago j o avisar, esperava no perder o trilho ou perderia tambm a refeio do dia.
Quando descia o interminvel valle de Estos interrogou uma famlia de camponeses locais que se encontravam colhendo "setas" (cogumelos), perguntou se estaria na direco certa para Andorra e mais uma vez ficou desassossegado perante a resposta, segundo eles estaria completamente fora de rota e era uma loucura aventurar-se assim em distancias to absurdas e sem saber onde estava nem por onde ir, diziam eles que Gr 11 eram todos os GRS, pois todos tinham o mesmo nome GR 11.1,GR 11.2 etc.
Revelou-se mais uma vez ser desnecessrio pedir informaes a quem no entendesse as razes de outros para quebrar as prprias peias mentais.
A meio da tarde um oportuno "camping" ainda aberto nesta poca, junto da estrada principal que conduz a Frana pelo tnel de Bielsa, proporciona-lhe a to desejada refeio com cerveja para pacificar a sede, j se faziam notar no cu as nuvens negras da trovoada que a vinha.
Um estrado largo e montono condu-lo durante toda a tarde a uma portela que tardava em chegar at que, pelas 17 horas encontra duas jovens moas, Ivone e Elena a porta de um refgio no guardado, acompanham-no e ajudam-se mutuamente a superar o medo da tempestade e dos sonhos em que um urso dourado, o devora devagar at de madrugada.
Tal como noutra etapa em que Miguel, o S. Miguel "da porta do convento", foi um considervel apoio depois de um p torcido, aqui Ivone e Elena, tiveram tambm um efeito reconfortante perante uma noite feita dia com os "flashes" de tantos e tantos relmpagos apenas com um mero segundo entre a luz e o som, nos intervalos via aparecer perfilados "hobbits" ,"brujas" e outras personagens surreais.
O dia seguinte ainda seria mais alucinante que a noite, o ar estava lmpido como sempre fica na bonana depois da alguma tempestade e a correria pelo monte abaixo embriagava-o, o vento fustigava-o no rosto transpirado e continuava a correr indiferentes as dores nos joelhos, as bolhas nos ps, ao cansao de todos os msculos, alguns at que nem ele sonhava existirem.
A meteorologia adiantava neve para os prximos dias em cotas acima de 2.500 metros e ele tinha de ser rpido pois apenas teria o dia seguinte para chegar o mais prximo possvel de Andorra.
Tentou alcanar o refgio de Colomers, j seu conhecido mas em vo, ao chegar a "Restanca", de novo os guardas do refgio o tentam convencer do perigo grande que continuar, de noite e sob a to terrvel tempestade regressada novamente durante a tarde e num caminho mal balizado nessa zona. Ele convence-se a deixa-se ficar perante uma promessa de jantar, cama seca e do primeiro banho em muitos dias.
Mais uma vez acorda com pesadelos, noite cerrada, para tentar fazer render o ltimo dia antes do nevo, das pistas de montanha ficarem tapadas pela neve. Surpreende-se da forma fsica que tem aumentado desde que chegou e da vontade anmica de correr por entre os caminhos tortos dentro do parque de Saint-Maurici/Encantats.
Chega a Espot ainda cedo, resolvido a no continuar mais alm, o cu prometia neve mas sentia a sensao "Dulce" de dever cumprido. Andorra era j ali ao virar, no total das 3 etapas tinha percorrido 2/3 dos 840 km que separavam o Atlntico do Mediterrneo pelo trilho do Gr 11, recomearia no prximo ano por Esterri DAneu, agora j por Barcelona/Manresa, mas de avio, a viagem de 24 horas comboio/autocarro para superar os 1.100 km entre casa e o objectivo era mais cansativa que a travessia da montanha grande.
Tinha um sonho por realizar entretanto, pedalar 13.000 km de Xina a Istambul por entre etapas e alucinaes, desertos e vises de outros mundos mais ou menos paralelos.

http://joel-matos.blogspot.com
Jorge Santos (09/2011)
Fantasmas e javalis ou um poema de longo curso

Dormira acarinhado pela noite amena, ali prximo, a poucos quilmetros de Andorra, agora era acordado pelos grunhidos dos Javalis, o Transhumante assustou-se ainda um pouco mas no demorou muito a lembrar-se onde estava; voltara ao GR 11 para tentar terminar o que comeara quatro anos antes, no ano de 2009, em Irun .
Dava agora mais valor que h anos atrs s pequenas ocorrncias dirias, talvez a falta de acontecimentos o fizesse valorizar mais os sons os cheiros ou os encontros casuais com os escassos caminhantes ou montanhistas.
Actualmente encontrava-se no Vale de Madriu, muito perto de Andorra e sua volta os javalis esforavam-se por manter o terreno chafurdado como era seu hbito.
Demorara cerca de cinco horas desde a partida de Lisboa em avio, fez escala em Barcelona na manh quente de sbado,15 de Setembro de 2012 e ainda fazia calor apesar de cair a tarde, estava um calor abafado e sem vento quando chegou a Andorra de Autocarro, tempo apenas de comer no primeiro bar de comida rpida, ainda tentou recomear onde tinha finalizado em 2011,em La Guingueta DAneu, mas em vo, o prximo bus apenas seria na segunda-feira, dois dias depois.
As grandes cidades no lhe despertavam muito interesse, mesmo aquela magnfica "Babel" com as torres de Gaudi.
Lembrava-se bem do vale de Madriu, isso sim, j tinha passado por aqui com um amigo o J.J. Portela h bastantes anos atrs, mas ainda se recordava dalguns pormenores do percurso, onde tinha tirado uma ou outra fotografia, dos lugares e fontes onde bebera uma boa gua, cristalina como diamante, lagoas de azul-turquesa, lembrava-se todavia das montanhas que no mudam muito, mudam-nos a nse muito essencialmente por de dentro.
Uns grupos de escaladores Catales (pareciam escaladores pelo aspecto) na cabana "dels esparvers" recomendam-lhe de uma forma pouco simptica que procure outro refgio pois aquele encontra-se lotado, a resposta foi igualmente fria e este disse-lhes que no precisava de tecto para dormir, qualquer recanto da floresta seria a sua casa nos prximos dias.
Perguntaram-lhe o que estava fazendo ao que o Transhumante respondeu que tencionava acabar o GR 11 em quinze dias; a resposta foram gargalhadas, pois que isso no era possvel j que o dolo da Catalunha e qui mundial e amigo pessoal destes, Kilian Jornet o havia feito em sete dias e os quinze, seria at mesmo assim impensvel, at para um fantasma e os Pirenus estavam pejados delesde fantamas e intrujes.
Ficaram mais aliviados quando lhes disse que todos estes Quilmetros, os estava fazendo mas em suaves etapas anuais.
Era noite quando alcana finalmente o refugi Engorgs e acende uma fogueira, cerra a porta e deixa-se adormecer pela segunda noite na montanha alta.
Mais uma manh magnfica f-lo lembrar que o tempo estvel em montanha no pode durar muito, sabe que em breve ter borrasca e ele est demasiado exposto aos elementos e sem qualquer apoio para menosprezar a segurana.
Pernoita seguidamente no enorme mosteiro do vale de Nria,chega muito tarde e cansado ao meio de muitos turistas que o miram, tinham subido no trem de cremalheira desde Queralbs, estavam limpos e perfumados ao contrrio dele, mas o banho merecido limpa-lhe a alma e um novo Transhumante que se faz ao caminho na manh seguinte por um caminho denominado "via dos engenheiros" onde o perigo espreita bem l no fundo da falsia, tinha de no olhar para baixo.

Nesse dia um sol admirvel e uma madrugada mansa, limpam-lhe a mente e o caminho at Malnu (onde viveu Kilian Jonet) alcana Puigcerd mas no consegue chegar at planoles nesse dia, planeava dormir num camping a existente mas de novo encontra lugar entre os seus amigos javalis no Bivoac "azul cor-de-tempestade" mas numa benvola floresta de pinheiros e accias recordava-se do trajecto de outros anos e das tempestades nesta serrania que podem assustar o mais arrojado dos homens e mesmo os Transhumantes no esto a salvo dos fantasmas do medo.
No dia seguinte, entre Dorria e Planoles mais um encontro, desta vez com um caminhante sobrecarregado, pergunta-lhe o Transhumante da razo de ir to pesado; a resposta foi imprevista, disse-lhe que iria passar muitos meses na montanha fazendo o percurso inverso dele, comeara em Cap-de-Creus e iria terminar no em Irun mas noutro lugar da pennsula Ibrica , talvez Finisterra ,ou Nxia atravs do Caminho de Santiago francs ou mesmo Lisboa ou Faro, perguntou ao Transhumante qual a sua opinio sobre o melhor percurso, este disse-lhe que pelas Astrias, o chamado "Camio del Norte", seria uma melhor opo pela a beleza da paisagem embora de inverno fosse de muito difcil progresso devido neve e nevoeiros intensos.
Depois de Almoar bem em Planoles num bom restaurante ( o referido camping estava fechando)ainda consegue alcanar Nria no fim de dia, corre atrs do sol que teima em esconder-se por detrs dele e projecta uma sombra de onde no consegue sair por mais que corra, e que suba naquele horizonte rido e maravilhoso, estava junto ao ponto mais alto da catalunha "o Puigmal" ,o ponto mais elevado do, possvel mente mais jovem pas do mundo,"A Catalnia" ou Catalunha. Para os "amigos".
Distingue-se ao longe uma primeira grande massa escura de nuvens, como que atradas por ele, espectros negros que o perseguem vindos de outras pocas de guerras civis, Hemigways e contrabandistas.
Para o trasnhumante, assim como para os fantasmas no havia fronteiras nem parerdes, a vida flua e era como um poema de longos discursos com ele mesmoe com os emboados fantasmas.
Ao fim da manh estava em Setcases com os sinais de tempestade mais prximos, mais tarde resolve sentar-se com os velhos e velhas na taberna da aldeia, conversam sobre rituais antigos e praticas de transumncia h muito abandonadas mas que no esquecem pela liberdade que usufruam na montanha.
Dizem lhe tambm ser muito perigoso continuar naquelas condies, contam-lhe do ultimo inverno em que morreram de frio num mesmo local onze alpinistas no mesmo percurso que ele iria iniciar, ainda tenta durante a tarde continuar, mas regressa cavaqueira de caf a as historias da transumncia at cair de cansao numa cama de "hostal" no virar da esquina
Foi calorosa a separao, com os velhos transumantes que de manh cedo estavam pousados no mesmo stio no mesmo sonho e comea, j em passo de corrida o que at a tinha feito em passo rpido, confiava mais no p direito que tinha torcido um ano antes e muitas vezes torcia com dores terrveis mesmo enquanto corria ou andava simplesmente a p, depressa chega a aldeia de moll.
Depois foi Beget com uma linda igreja Romnica e Albany foi o prximo ponto de passagem com Sant Aniol daguja no centro de uma vegetao tropical e uma humidade de cem por cento, de perder o flego, mas recupera-o depressa a poucos quilmetros de Albany, na vertiginosa descida duma interminvel estrada de cimento, quando v pela primeira vez o Mediterrneo, pondera ainda se no ter chegado a hora de terminar aquele sofrimento fsico, segredam-lhe de manso no ouvido para continuar mas ele inutilmente mira sobre o ombro tentando ver sombra ou espectro mas nada, apenas a floresta, agora bem mais seca e amarelada pelo inicio de Outono.
Almoou na casa de um campons que escrevera na porta em letras toscas "servimos bebidas e refeies",
Regara bastante bem a "botifarra," o feijo branco e a salsa com um bom vinho caseiro, sentia-se tonto quando passou por ele,pouco depois um casal de ciclistas (faziam o percurso contrrio tentando chegar a Irun num percurso por vezes paralelo quando no o mesmo, mas mais propcio para bicicletas de todo o terreno ) perguntam-lhe se estava bem , sim; respondeu :
-estava melhor que nunca e continuou sorrindo de satisfao enquanto se afastava cambaleando em direco ao "mar-do-outro-lado".
Era tarde de quinta-feira e o voo de regresso seria no domingo seguinte, bem cedo; havia que fazer concesses e em boa hora o pensou porque uma boleia para Lan o deixa mais confortavelmente prximo de Cap-de-creus e do destino, do ponto de encontro com os ancestrais que o perseguiam desde Irun, desde que comeou caminhando no mar-de-cima.
Compreende agora por que razo este foi o ponto de encontro escolhido, a paisagem torcida e retorcida, esburacada at, pelos ventos e mars, criando uma sbita catarse de estilos e sentidos que no tem igual no mundo,
Lembrou-se de uma frase de Plato, "s os mortos conhecem o fim do mundo" e aqui parecia-lhe o mundo do fim do mundo e perguntou-se: -"se no estaria morto".
Em Port-de-La-Selva conheceu um simptico casal que o acompanhou, falavam demais e interromperam as conversas que vinha fazendo consigo mesmo, ao longo do caminho todo desde Irun,
Sentia-se incomodado mas deixou correr os acontecimentos, afinal era assim que decidira viver, como Trashumante, ao sabor do ar e das torrentes do tempo, domando criaturas e paisagens. Umas mais rsticas e pacatas e outras mais cleres e aladas como aves gritantes.
Foi um individuo aliviado que chegou finalmente a Creus e a Cadaqus a povoao escolhida por Dali, Picasso, Gaudi e muitos outros para tertlias sazonais.
Sentia pouco profundo, o apenas ter feito um trilho comprido, nada mais, apenas um comprido e inesttico poema sem mtrica.
Os fantasmas no compareceram ao encontro, ficaram pelos montes com medo da "tramutana" (vento norte desta latitude que afasta as tempestades vindas do Pirinu Catalo) esperava senti-los mais prximos da pele noutro continente, em Xian, quando iniciasse a rota da seda em bicicleta ou talvez nas tempestades de areia do deserto do taklamakan, que costumam soterrar estradas, caminhos e viajantes oportunistas.
Provavelmente o Transhumante ficaria nos Pirenus e regressaria de novo a Irun ou Hendaye pelo mesmo trilho mas agora a ss, no me agradava a ideia de voltar a percorrer com ele outra e outra vez o mesmo cenrio os mesmos calhaus e precipcios e os mesmos sonhos extintos.
Prestou ali mesmo, no farol do cabo de Creus, homenagem aos homens que conduziam o gado dos pontos mais altos dos Pirenus no inverno at as plancies da erva, "os Transumantes ", A transumncia foi uma prtica h muito finda, para dar lugar a uma mera indstria turstica que flagela as encostas desta soberba serrania com um excesso de pistas de esqui e uma paisagem lunar de dar medo at a um Transhumante, como tinha orgulho em se considerar ( EU TE SADO TRANSUMANTE )

Jorge Santos
(Setembro 2012)



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Blog creado por namastibet el 13/09/2012

A ROTA DA SEDA A ideia em seguir de bicicleta a rota mercantil primordial da humanidade, tinha-se adaptado imaginao, durante anos como uma lapa ou um crustceo nas rochas, Jo (o Transhumante) pensou ser chegado o momento de partir....


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