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Namastibet

     

, 17:29

Xi'an/Bishket 2013 (Mad'in China)

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Xian / Bishkek 2013 (Med'in China)<
Quando entrei no aeroporto de Lisboa, no dia 30 de Maio de 2013, numa meia tarde quente, sentia-me inseguro, transportava comigo um enorme embrulho contendo uma bicicleta meio desmontada e o que eu considerava ter de coragem, a metade bastante para tentar atravessar a grande China pedalando.Revelou ser uma tarefa para a qual ainda no me encontrava preparado, a monotonia infinita do planalto tibetano e a paz que no levava comigo no pequeno alforge, revelaram-se-me avassaladoras.Perguntou um polcia quando entrei na rea internacional do aerdromo,
- qual o seu destino?
respondi com vigor exagerado
para a China!
respondeu ele que para l no iria de forma alguma
retorqui eu que sim, era sem dvida alguma o meu destino,
respondeu ele de novo,
- no h voos entre Lisboa e Pequim
Disse-lhe finalmente que faria escala em Istanbul e deixou-me passar com um ar astucioso, peculiar em todas as autoridades de todos os pases.
- // -
Ao aterrar em Xian de madrugada, no supunha o redemoinho de acontecimentos e contrariedades que este imenso pais me reservava, aguardava-me o txi que me haveria de levar ao "youth hostel les 7 sages".

Chovia e as ruas pareciam encantadoramente Asiticas e fantasmagricas junto daquele paredo escuro.
Xian parecia toda uma cidadela medieval sequestrada por um colosso demasiado ocidentalizado de beto, alcatro e ferro que era o continente Asitico; mesmo o hotel, aproveitado das antigas cavalarias do corpo de elite das tropas do imperador Xin, fazia recuar o tempo no interior dos muros da cidade, fora a China mostrava as verdadeiras cores, invicta e esventrada dos seus gloriosos e ancestrais dolos e sendo preenchida com a pestilncia de um fumo horrvel.

Pelo menos aqui falava-se ingls, se bem que tivesse que me adaptar ao sotaque. Reconstru a bicicleta no quarto, aos ps da cama, tomei um banho quente e mais parecia um zombie ou uma mquina controlada por piloto automtico que repousava das 20 horas de jornada. naquele colcho rente ao cho e nos nicos lenis brancos de toda a viagem, nem os sonhos adivinhavam o meu futuro na China.

Sete da madrugada e pergunto na receo onde posso adquirir um mapa de estradas Chinesas, uma imprescindvel ferramenta, seno a mais importante para continuar para Ocidente na direo do Deserto do Taklamakan e do Quirguisto.
Apontou-me o mercado ao lado da estao no muito longe do albergue, para onde me dirigi; aqui foi a primeira noo da sia total que me envolveu nesta viagem, as ruas das prostitutas importunando possveis clientes, a fealdade dos becos pejados de lixo, a pobreza extrema estampada nas feies mas na alma a nobreza prpria de quem protagonizou a Historia da humanidade, respondiam sempre no mesmo tom e repetiam as minhas palavras quando dizia que queria comprar um "Map of China", continuei durante cerca de uma hora questionando os transeuntes que me pareciam saber algum ingls mas ingloriamente, nem um nico termo compreendiam nem um gesto, nada
Dado XiAn ser uma cidade construda dentro e em volta de uma muralha quadrangular nada mais sensato me ocorreu seno seguir junto ao muro, para Oeste, talvez isso me levasse de uma forma mgica, ao meu destino prximo, a cidade de Lanzhou, pois nem o nome dessa ou de outras cidades eu era capaz de pronunciar em Chins.
Senti-me completamente perdido no meio do "smog" e com uma vontade de voltar, de no estar ali, a alimentao futura no menos que a fome atormentava-me, o mito ocidental, que os chineses comem todo o tipo de insectos e animais deixava-me aterrorizado tanto que durante este primeiro dia decidi no comer nada para me habituar a ideia de me alimentar dalguma coisa.
Foi agradvel a viso de postal dos campos cultivados, das rvores beijando a estrada, dos praticantes de tai-chi nos jardins, ao som de diferentes instrumentos e finalmente na rota que me levaria ao Ocidente, a "Rota da Seda"
Havia pedalado pouco mais de cem quilmetros sem me dar conta do "jet-leg" e da fome, pareciam mais pesadas as pernas e a bicicleta, as pequenas subidas afiguravam-se a montanhas ngremes e a mochila nas costas pesava como chumbo.
Um grupo de camies, num dos muitos locais artesanais de lavagem, fez-me pensar que talvez fosse bom tentar provar do acolhimento deste povo, ao principio, riram-se dos meus gestos quando sugeri colocar a bicicleta dentro da galera alta e vermelha de transporte de carvo.
Fiquei contente quando o condutor me levou pela estrada, em ziguezague, sempre tentando fazer conversa, oferecendo-me tabaco, comida ,bebida e o telemvel onde a esposa ou a filha perguntavam com umas tmidas palavras em ingls, para onde ia e o que estava fazendo na China, inclusivamente parou junto das bilheteiras do exercito de Terracota do imperador "Xin" para que o traduzissem questionando para onde ia eu, ficou com um ar de puro espanto quando lhes anunciei a pretenso de atravessar a China.
Mais tarde durante a viagem com cerca de 80 /100 km, pelas minhas contas, mostrei a foto de famlia que trazia comigo e tive dificuldade em faz-lo entender que no era para oferecer, mas recordao da famlia que transportava comigo quando viajava.
Como que era guardado pelos colegas, cada um que passava acenava-lhe e perguntava algo que eu entendia como sendo "pra onde levas esse branco ? " ou "que fazes com ele a dentro ? "
Algumas dezenas de quilmetros depois de apeado e agradecer ao agradvel motorista do camio, aconteceu o primeiro furo
No tardou em aparecer um jovem com cerca de 20 anos, com roupas de ciclismo, parecia um normalssimo ocidental em fim de semana , montado numa bicicleta de montanha nova,
entendi que ia na direo de Lanzhou, transportou a cmara de ar at uma "oficina" improvisada, ali perto, junto ao passeio, consistia numa bacia com agua, alguns remendos e uma bomba de ar manual, apesar da minha insistncia este recm chegado amigo no me deixou pagar o arranjo, senti-me aliviado por isso, tinha acabado de chegar a este pas (diferente de muitos outros) e ainda no confiava na honestidade que comprovaria mais tarde e me entregaria de alma e corao a estes maravilhosos povos da China.

No nos separmos, durante as 48 horas seguintes, nem para respirar. Sufocava-me e penso que tambm ele sentia isso, pela azfama que demonstrava em procurar algum que falasse ingls, nas escolas bsicas onde no obtnhamos grande ajuda, nem sequer por parte dos professores, com um ingls muito primrio, apenas nas universidades conseguia manter alguma conversao com os docentes, que manifestavam uma curiosidade enorme pelo ocidente e pela minha viagem, mas apesar disso, nunca consegui compreender o meu jovem amigo, acerca do que ele desejaria comunicar-me, pensei at que no me queria como companheiro de viagem mas, quando eu me afastava propositadamente e tambm porque ele pedalava devagar, este pedia-me para abrandar, de forma que fui afrouxando a minha vontade de fazer muitos quilmetros e as horas passavam-se sem que diminusse a distancia cidade mais prxima.
Pernoitei no minsculo "bivouac" azul, (tambm o meu amigo chins transportava uma exgua tenda) no meio de fenos empilhados, numa exgua aldeia e depois de termos solicitado aos locais para descansar.
Foi uma festa para os midos, no estavam habituados a ver estrangeiros e seguiam todos os meus gestos sem incomodarem, estava habituado noutras paragens a ser atacado literalmente por enxames de crianas, pilhado at com a indulgncia dos familiares, nada disso se passava na pacatez desta China simples e rural.

No dia seguinte, muito cedo detivemo-nos numa pequena vila, apenas com uma rua bastante poeirenta, serviam-se refeies sob frondosas rvores, fui obsequiado com um pequeno almoo, servido a preceito num saco de plstico pousado uma mlaga jamais lavada, soube bem estar sentado em plena rua sorvendo, como habito nestas paragens, aquela sopa picante, adivinhava-se o sabor pela cor avermelhada e objetos desconhecidos, repugnantes pairando no caldo, mas foi aconchegante, tinha fome e fosse qual fosse a refeio, era bem vinda.

Adivinhavam-se as feies tibetanas em alguns peregrinos medida que me ia aproximando do elevado "plateau", pareciam-se com os caminhantes de Santiago de Compostela que conhecera noutros tempos, numa geografia de rostos distintos.
Era noite quando chegmos descomunal cidade de Lanhzou e de novo poluio, o caos no trnsito exclusivamente automvel, as ruas apinhadas de gente que me olhavam como se fosse eu um extraterreno sado dalgum "OVNI" em talhe de bicicleta.

Esta, como todas as cidades Chinesas que conheci, parecia cintilar de tanta luz e non vista de longe, reparei nos rostos franzinos dos camponeses encostados aos vidros embaciados dos autocarros, boquiabertos com tanta ostentao, diz-se por aqui "para ingls ver", neste caso ser mais para uso domstico, porque nas ruas detrs, no mais central lugar da cidade mas escondidas aos forasteiros, eram o mesmo amontoado de escombros, lixo, falta de esgotos e ruas sem asfalto, cada morador tem de usar lanterna para no cair numa vala cheia de ratos, num buraco onde queimado diariamente o lixo ou num vazadouro de esgoto caseiro.
Exibiu-me aos estranhos amigos "teenegers" e a uma irm que felizmente falava bem ingls, trabalhava na verso Chinesa do Kentucky Fried Chicken, eu sabia previamente no haver esta marca de franchising na China, mas a imitao era perfeita, alm disso eu detestava frango,
Disse-me que no viviam juntos, depressa compreendi porqu, os pais eram separados e o rapaz ficou no "dark side of the moon", com um pai sempre alcoolizado, numa casa de duas divises e extremamente suja, discutiram durante algum tempo,ela tentava, penso eu, convencer o irmo a procurar um hotel para mim em lugar de me levar para casa dela,
A resposta foi arrogante no primeiro hotel onde entrou pedindo informaes - no pode de forma alguma, ficar em hotis para Chineses, foi ento procurar um hotel exclusivamente para estrangeiros, saiu impressionada e com as mos na cabea, o preo por cada noite era escandaloso, 350 yuans,( 35 Euros) quase o tero do salrio de um ms de trabalho na China.
Resolveram que ficaria na casa do pai dele, ofereceram-me jantar numa esplanada em plena rua, espetadas de carne de co no churrasco, acompanhadas de cerveja, muita cerveja, sentia-me vulnervel e ainda mais bebendo assim tanto, depois de um dia inteiro em jejum, mas confiei neste bando de jovens que anunciavam nos tradutores dos telemveis como sendo Hackers (perguntei-me se entenderiam o significado do termo)
Viviam sozinhos, em pequenas lojas de 4/5 metros quadrados apenas com um computador, um LCD na parede, caixas usadas de comida pr-cozinhada, amontoadas a um canto, despedimo-nos tarde e fui para a casa do meu anfitrio.
Ainda tentei lutar contra o sono, estava sozinho e indefeso numa casa annima, numa incgnita cidade do interior da China, onde poderia desaparecer sem deixar rasto.

O rapaz dormiu no sof e cedeu-me uma cama coberta de uma esteira em bambu, muito mais tarde que descobri que a cama tinha duas utilizaes, era usada como mesa quando vazia dos moradores noturnos, sendo assim, sem retirar a esteira, eu dormira em cima da mesa.

Acordei cedo e foi como um blsamo a partida de novo e sempre para Ocidente, desta vez em comboio como me foi "imposto" pela irm do jovem que me cedeu a cama para dormir, fui em direco a Xining, capital da provncia de Quighai e terras dos grandes lagos sagrados e salgados.

Fez-me esta prometer que no iria de bicicleta subir aquelas montanhas to ngremes que se avistavam do cento da cidade, dizia, apontando os penedos escuros, ao que eu concordei, faltavam, (pensava eu,) muitos quilmetros e nada melhor que o conforto de um comboio.

Os jovens so imensos na China e o vago estava apinhado deles, viciados em telemveis, ainda mais que no ocidente, dentre estes salientava-se especialmente um pelo entusiasmo radiante e a facilidade com que chamava a ateno das belas raparigas, de quase todas elas, pensei que se conheciam mas mais tarde descobri que eram apenas companhia de ocasio.

Quando sa do comboio veio correndo ao meu encontro e coloca-me um pin com uma ave pernalta desenhada dizendo ser da "sua" organizao, que eu soubesse todas as "organizaes" na China so governamentais, mas no voltei a pensar no caso, no fosse voltar a encontra-lo por mais duas vezes nos cerca de 2.500 quilmetros que palmilhei deste pas, coincidncias?
A vila de Daotanghe situa-se numa encruzilhada de duas estradas sempre com a tradicional e monumental praa ornamentada com alguma obra de arte arrogante, regimental e naturalmente desprovida de sentimentos.

As vendedoras na rua puxavam-me os cabelos das pernas quando passava, apeado da bicicleta, junto ao lago Quinghai, uma jovem vem ter comigo e passa-me a mo pela cara para sentir a minha barba eriada, algo que no estavam habituados a ver ou sentir, nem eu a ser assediado desta forma por quem recusava um simples beijo de despedida quando eu por vezes tentava ser simptico com o sexo oposto.

Nessa noite fico num hotel mas inutilmente procuro pelo chuveiro ou o banheiro de que tanto precisava, o quarto tinha apenas o tamanho do minicolcho e do meu corpo semiencolhido , na casa de banho pblica havia uma pirmide fecal petrificada e nauseabunda sob o respetivo buraco, nas traseiras da aldeia onde toda a populao fazia as necessidades quase a cu aberto.

Se havia ascendido por uma estrada interminvel desenhava-se para os dias seguintes o pior cenrio possvel, descobri tarde demais que me tinha enganado no itinerrio por no ter comprado mapa, em vez de usar o percurso da direita (Oeste) em direco ao lago Quinghai, atravessei algumas centenas de Quilmetros de montanhas para Sul (para Gonghe), mais outra poeirenta e desagradvel cidade.

Continuei por dias consecutivos, dormindo em "bivoac" e pedalando por subidas abruptas em altitudes de perto de 4.000 metros, agarrado traseira de camies, carregados de asfalto e pedra, para a construo das imponentes vias de acesso vitais a China, talvez nem tanto ao povo "Uigur", maioritrio ainda na provncia de Xinjiang (por poucos anos) auto-estradas sem trfego significativo, a no ser tanques de guerra, carros antimotim e policia, muitos polcias

A fresquido das madrugadas e os espaos sem termo do altiplano eram um calmante para a alma, embora de resto, os dias quentssimos, tendo como nica sombra a que eu prprio criava, os sons do trfego, as omnipresentes buzinadelas nas cidades e o calor torturante da altitude tinham um efeito negativo que eu tentava contrariar, antecipando um final buclico para esta odisseia, nas serras do Quirguisto, em Aslam, com cascatas e jovens brancas e graciosas, tomando banho nuas nas guas geladas das montanhas em Aslam, nas mgicas florestas da sia Central.

Substituram nesta rea as duas nicas estradas existentes (uma em direco a Kashi e outra para Golmud e Tibet) por autoestradas, sem maneira nem forma de circular sem passar por camaras de vigilncia, muitas vistorias policiais e portagens colocadas estrategicamente para controlar toda uma vasta regio que deseja to s e simplesmente a independncia da DURA tirania Chinesa.

Acerquei-me da pior maneira possvel do lago Quinghai, tinha percorrido uma distncia trs vezes superior necessria para o avistar, mas foi uma felicidade grande ao ver esta enorme mancha azul-clara que eu pensava ser gua doce.

Mais uma vez o meu provisional "anjo-da-guarda" apareceu: era o mesmo, sempre presente chins gorduchinho e afvel do comboio em Xining, apontou o "pin" colocado por ele prprio, alguns dias antes, nessa mesma t-shirt; era fcil no me separar dela, pois tinha comigo apenas duas camisolas, a de mangas curtas que tinha vestida e outra de mangas compridas para ocasies mais formais, jantar num restaurante, por exemplo.

Impressionou-me a avistamento de iaques pastando nas margens deste lago que parecia mar, nmadas como os seus guardies, em coloridas tendas, de rosto e corpo completamente tapados devido a intensidade dos raios solares, alguns espreitando no fundo dos panos e todos eles vindos dos confins dos sculos continuavam iguais a si prprios.

Vi peregrinos mandando ao ar papeis com cavalinhos de vento
impressos, monges que se deliciavam quando me sentava gesticulando, no meio deles, tive encontros casuais com estrelas, dormindo na erva de vida breve mas depois vinham as angstias dos espaos preenchidos de nada
e a incerteza dos percursos sem fim, tive a sensao de voar nas descidas dos planaltos de estepe at ao inicio dos desertos cinza ou de fazer parte das admirveis pinturas chinesas quando as rvores nas estradas tocavam o cho e os paves se passeavam pelas tradicionais aldeias.

Hexiang, a cidade das bicicletas e encruzilhada das estradas, 109 para o Tibete 315, para ocidente.

A segunda escolha revelou-se depois errada apesar de ser a cidade mais prxima e onde poderia ter acesso a dinheiro corrente dado que o nico banco alm dos servios postais Chineses desta localidade me negarem trocar ou levantar em ATM.

Averiguei no multibanco, precisava de seis dgitos em lugar dos normais quatro, do cdigo secreto, na parede dos bancos em letras vistosas mostravam os cambio do euro e do dlar, mas era proibido a estrangeiros, apenas no banco da China era permitido e em mais umas poucas entidades certificados e vigiados pelo estado.
Avistei no outro lado da ruas, trs transeuntes, um rapaz e duas jovens, pareciam estrangeiros pela roupa lavada e por usarem mochilas, falavam ingls, vinham de peregrinao desde Lhasa e foi com eles que voltei a tentar cambiar euros, foi a mesma resposta,- no temos autorizao para cambiar moeda a estrangeiros.

Comecei a ficar preocupado, disseram-me que na prxima cidade a cerca de 80/100 km pela estrada 315 haveria um banco com ATM onde poderia fazer o cambio ou levantamento de yuanes em ATM.
Este acolhedor grupo de peregrinos de Lhasa aliviou-me da fome com mais uma refeio gratuita num simptico restaurante, depois continuei a minha viagem na direo que me tinham indicado como sendo a mais prxima para conseguir "cash".
Jamais teria seguido pelo caminho da direita, no fosse esta emergncia, mas como algures esses dois percursos entroncavam numa nica via em direo a Kashi, pelo corao do deserto do Taklamakan, foi por esta que continuei rumo ao final abrupto da viagem.

Halihatu ou Haixi eram as localidades a alcanar nessa tarde na regio autnoma de "wulan country", a questo era a de vencer 100 km numa tarde que j ia avanada, percorri uma maldita estrada 315 com "up grade" de autoestrada,
perguntei na portagem monumental, se poderia passar de bicicleta, falvamos por gestos, como era habitual assim como era a j banalizada foto, que os portageiros e polcias de servio lhes apeteceu tirar comigo, vinham um por um, perfilavam-se em pose e com o tradicional "V" de Vitria feito com os dedos indicador e mdio espetados , triunfo o deles, fracasso o meu.
Ainda no percebo o significado deste gesto mas tornou-se trivial um pouco por todo o mundo, no creio que neste pais, tenha alguma simbologia prxima ou longnqua ao filme homlogo. ou mesmo com um outro gesto de um s dedo, neste caso o mdio bem levantado, perante os agressivos e importunos apitos sem me parecer que conhecessem por aqui o alcance deste gesto.

No me parecia muito mundano o sitio onde decidi ficar, numa placa castanha dizia : Dulan Temple
Eram seis da tarde e ameaava chover, por essa razo fui perguntar por refgio e uma refeio quente, na pequena subida em terra batida que dava diretamente acesso ao mosteiro fui abordado por um individuo que eu julgava ser um monge sem a tradicional veste bordeaux e amarela.

Perguntei por gestos se podia dormir no mosteiro, questionou se possua algum dinheiro e quanto ao que eu respondi que tinha muito pouco, apontou que deveria seguir a estrada e escreveu no cho a distancia at cidade mais prxima, mostrei-lhe apontando o cu, que ia chover e no poderia continuar
Pousou um brao sobre os meus ombros, parecia dada e sincera a ajuda e vieram-me as lgrimas aos olhos nesse momento.

Encaminhou-me para a entrada nica do mosteiro onde se podia ler "POLICE" e mudando de semblante inesperadamente, mostrou que queria a minha identificao, apresentou-me um pequeno carto, com uma estrela vermelha num canto, talvez revelando o seu estatuto na nomenclatura do estado.
Ficou de mo estendida numa atitude agressiva, olhando-me nos olhos e esperando que lhe apresentasse o passaporte.

Revistou-me a mim e a toda a bagagem, entretanto comecei a ser rodeado de mais autoridades. todos sem fardamento, principiou um, mais jovem por usar o tradutor do telemvel, convidou-me amavelmente para visitar o mosteiro enquanto ia fazendo perguntas, estranhamente no ultrapassmos as primeiras escadarias do templo, fiz algumas fotos deles que depois foram apagadas assim como todas, onde figuravam militares, fotos do Dalai -Lama em quadros de parede obtidas noutros mosteiros ou material blico e estranhas "ambulncias" (com o sinal da cruz vermelha) com canhes de gua no topo, que circulavam nas estradas a caminho de Xinjiang.

Olhei as queimaduras profundas nos braos e nuca de alguns monges, pareciam feitas com ties ou cigarros acesos, fiz gestualmente um reparo, mas no obtive explicao, eles depressa se cobriram, pareceu-me ver medo nos seu olhos provavelmente devido a minha presena.

No obtive qualquer visita guiada, quando voltei ao austero gabinete da esquadra, mandaram sentar-me, perguntaram vrias vezes se estava sozinho, se tinha fome (nunca trouxeram comida tal como o povo Chins) e o que fazia alisempre com grandes gestos e uma inquietao que eu no compreendi a razo, como se fosse algum convidado inoportuno, pareciam no saber o que fazer comigo.

Examinaram o visto cuidadosamente talvez julgando tratar-se de falsificao.

Comeou a chover e foi sob chuva, com muitos relmpagos que me colocaram num carro, pareceu-me um "Lexus" castanho, num modelo diferente dos europeus, sem matricula.

Samos para o ATM na cidade, a fim de levantar algum dinheiro, tive medo ao usar o carto rodeado de tantos agentes (possivelmente da polcia) mas foi um alvio ter acesso a divisas correntes,
No regresso detivemo-nos numa esquadra, a confirmei serem polcias sem uniforme, falaram durante uns minutos enquanto me olhavam pelo canto dos olhos e perguntei em ingls :
-"Am I arrested ?"
Responderam com o tradutor do telemvel
-"not yet !"
Escreveu que tinham vindo confirmar o meu visto mas um relmpago tinha cado diretamente em cima do computador da esquadra
Por fim escreveu o jovem polcia no telemvel tentando ser simptico:
-"you're good !"
No entendi se teria havido engano na traduo, ou queria transmitir que eu era boa pessoa, com bom carcter ou apenas um homem de coragem, audcia que me faltou pouco depois.

Voltmos ao mosteiro onde o poro de polcias tinha aumentado substancialmente, estavam na pequena sala cerca de doze pessoas entre fardados e no fardados, isso dividiu-me.
-sentir-me-ia apavorado ou se algum finalmente havia reconhecido da minha importncia.-

As atitudes tinham-se tornado mais agressivas, por cada tentativa minha para me erguer da cadeira colocada no meio desta chusma de gente era empurrado pelos ombros e reprimido, obrigado a ceder perante a violncia visvel nos rostos destes homens, encostavam os olhos aos meus numa postura de "posso e mando".

De novo as mesmas perguntas, se estava sozinho etc, nesse momento entra uma jovem que me disse em ingls- no ser bem vindo em Xinjiang,
- Iria ser transportado, para minha segurana para um "hotel de turistas",
s minhas custas e no dia seguinte iria ser posto num autocarro para ser extrado (foi essa a palavra usada) desta provncia.
Insurgi-me com vigor e levantei-me e ergui a voz dizendo:
-tenho autorizao oficial, dada pela embaixada em Lisboa para atravessar este territrio, o meu voo est reservado em Bishkek no Kirguisto, esta a nica via de acesso da China ao Quirguisto.

No serviu de nada e s piorou a minha delicada posio, houve alguns berros que no entendi, nem a tradutora lhe apeteceu devolver-me o significado
Disse-me simplesmente:
"-Aqui governamos ns"
"-podes ir para o Tibete mas no te permitido continuar nesta estrada em direo a Kashi"
Sabendo eu da dificuldade de passar sozinho, sem fazer parte duma viagem organizada com "guia oficial" para o Tibete, restava-me voltar ao ponto de partida, a Xian.
Mas os imprevistos no acabaram



(continua)



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Sobre este Blog
Blog creado por namastibet el 13/09/2012

A ROTA DA SEDA A ideia em seguir de bicicleta a rota mercantil primordial da humanidade, tinha-se adaptado imaginao, durante anos como uma lapa ou um crustceo nas rochas, Jo (o Transhumante) pensou ser chegado o momento de partir....


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